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Se não queres ouvir, falo aos peixes
Em meados de setembro irromperam e se alastraram pelas
praias do Nordeste manchas de petróleo cuja projeção geodésica ocorreu entre
600 e 700 km da costa brasileira. Que governo sem gestão! Não tem capacidade de
ouvir e nem de decidir, queda-se numa inércia sem rumo.
Se não queres ouvir, falo aos peixes. Relembro o sermão do
padre Antônio Vieira, “Quarta-feira de cinzas” em São Luís, Maranhão, no século
XVII. Peixes, oh peixes! A ambição e a estupidez humanas estão levando à morte
os teus oceanos.
Peixes, oh peixes! Os donos das vidas do planeta são como
um polvo monstruoso, com mil tentáculos devastam florestas, asfixiam a
atmosfera e contaminam os mares. Peixes, oh peixes! As tartarugas, camarões e
caranguejos, teus irmãos, morrem envenenados nas praias e mangues do Nordeste.
Peixes, oh peixes! Que governo incapaz de dirigir o nosso infortunado Brasil!
Organizem-se, oh indolentes, mobilizem a Marinha, órgãos federais, governadores
nordestinos e prefeitos das capitais e a própria população, a fim de enfrentar
a tragédia ambiental que se abate sobre o país.
Dezenas e dezenas de satélites sobrevoam e giram em torno
da Terra, detectando até um pequeno desmatamento. Será que ainda não se conhece
quem provocou o desastre ambiental? Rasguemos a máscara da hipocrisia. Uma
poderosa empresa dona de navios petroleiros causou o enorme vazamento. Como
atua o governo federal? Comprometido com forças econômicas transnacionais,
procura abafar o responsável pela catástrofe. De início, falou alto, depois
afinou.
Que silêncio! Talvez tenha sido alguma empresa
norte-americana. Lembrem-se dos dois navios carregados de milho, do Irã,
impedidos de prosseguir viagem por decisão do governo, apoiando um embargo dos
EUA.
Agassiz Almeida Ativista dos Direitos Humanos Professor da UFPB.
